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Acolhimento de imigrantes e refugiados: vínculos, perdas e pertencimento

Acolhimento, Blog, Expatriados, Saúde Mental

Este artigo foi adaptado e ampliado a partir de uma publicação autoral de Gisa Aquino Dineli no LinkedIn.

Deixar um país não significa apenas atravessar uma fronteira. Muitas vezes, significa aprender novos códigos, lidar com ausências e encontrar um lugar possível entre aquilo que ficou e aquilo que ainda está por se construir.

Falar sobre acolhimento de imigrantes e refugiados pede, antes de tudo, cuidado com as palavras. Nenhuma pessoa se resume ao seu documento, ao motivo de sua partida ou às dificuldades que enfrentou. Há histórias de medo e perda, mas também projetos, saberes, afetos, trabalho, cultura e desejo de futuro.

Na saúde mental, esse cuidado é ainda mais importante. A migração e o refúgio podem trazer desafios importantes, porém não determinam um diagnóstico. Cada trajetória é singular e se relaciona com as condições de vida antes da partida, durante o percurso e no lugar de chegada.

O que muda quando alguém deixa seu país

A mudança de país costuma mexer com referências que pareciam estáveis. A língua pode exigir esforço para tarefas simples. Os costumes cotidianos deixam de ser automáticos. O clima, a comida, os horários, as formas de cumprimentar e até o silêncio nas relações podem ganhar novos significados.

Além disso, há vínculos que passam a existir à distância. Festas, nascimentos, doenças e despedidas podem acontecer sem a presença física de quem partiu. Essa distância não elimina o afeto, mas transforma a maneira de vivê-lo. Por isso, a saudade não é um detalhe da experiência migratória: ela pode se tornar parte importante da vida emocional.

Também é possível sentir ambivalência, isto é, sentimentos diferentes e até contraditórios ao mesmo tempo. Alguém pode se alegrar com uma oportunidade e, ainda assim, sofrer pela ausência de pessoas queridas. Pode desejar integração no novo lugar sem querer abandonar sua história. Reconhecer essa complexidade evita cobranças injustas por uma adaptação rápida ou por uma gratidão permanente.

Em cidades que recebem pessoas de muitas origens, como ocorre em diferentes contextos brasileiros, o acolhimento começa nas relações concretas. Uma conversa respeitosa, uma informação compreensível, o reconhecimento de um sotaque sem ironia e a abertura para aprender com outra cultura ajudam a criar condições de pertencimento.

Migração, refúgio e deslocamento: diferenças que importam

Os termos usados para falar de mobilidade humana têm dimensões sociais, políticas e jurídicas. Por isso, simplificá-los pode apagar necessidades específicas e gerar confusão.

Migrante não é sinônimo de escolha livre

Não existe uma definição universal única para “migrante”. A UNESCO, com base em referências da Organização Internacional para as Migrações, usa o termo de forma ampla para pessoas que deixam o local de residência habitual, dentro do próprio país ou através de uma fronteira internacional, por razões e em condições diversas. Esse deslocamento pode ser voluntário ou involuntário.

Assim, não é adequado afirmar que toda pessoa imigrante mudou de país por decisão inteiramente livre. Há quem se mova por estudo, trabalho ou reunião familiar. Outras pessoas partem diante de pobreza, violência, discriminação, falta de acesso a direitos ou circunstâncias que reduzem profundamente suas possibilidades de escolha.

Refúgio é uma condição de proteção reconhecida em bases específicas

“Refugiado” não é apenas uma forma de dizer que alguém sofreu muito ao sair de seu país. É uma categoria de proteção internacional. Segundo o ACNUR, refugiadas e refugiados estão fora de seu país de origem por fundado temor de perseguição ou por situações como graves violações de direitos humanos e conflitos armados.

Uma pessoa solicitante de refúgio, por sua vez, busca essa proteção, mas ainda aguarda a decisão sobre seu pedido. Nem toda solicitação resulta no reconhecimento da condição de refugiado. Essas distinções não são meramente burocráticas: elas influenciam o acesso a direitos e serviços.

Desastres, degradação ambiental e eventos climáticos podem forçar deslocamentos e produzir necessidades urgentes de proteção. No entanto, eles não conferem automaticamente, por si só, o reconhecimento jurídico de refúgio. Situações concretas exigem análise especializada, e este texto não substitui orientação jurídica individual.

Pertencimento também é uma questão de condições de vida

É comum pensar no pertencimento como um sentimento estritamente interno. Ele também depende de condições materiais e sociais. Moradia segura, trabalho digno, acesso à educação, possibilidade de compreender informações públicas, serviços de saúde acessíveis e proteção contra discriminação ajudam uma pessoa a reconstruir a vida com mais segurança.

A Organização Mundial da Saúde destaca que a saúde mental de refugiados e migrantes se relaciona com fatores individuais, familiares, comunitários e estruturais. Entre eles estão a segurança, as redes de apoio, a estabilidade de renda e moradia, a experiência de discriminação, o acesso aos serviços e a continuidade do cuidado quando necessário.

Isso não significa que toda pessoa refugiada ou migrante desenvolverá um sofrimento psíquico ou um transtorno mental. Dificuldades para dormir, medo, irritação, tristeza ou sensação de desenraizamento podem aparecer em períodos de mudança intensa. Em muitas situações, essas reações diminuem com o tempo e com melhores condições de apoio. Em outras, o sofrimento persiste ou se intensifica e merece atenção profissional.

Também convém evitar transformar “resiliência” em obrigação. A palavra pode nomear recursos importantes, como a capacidade de criar caminhos diante da adversidade. Porém, ela não deve servir para exigir que alguém suporte violências, precariedade ou exclusão sem ajuda. Nenhuma pessoa precisa provar força o tempo todo para ser respeitada.

Redes de apoio: o acolhimento que se faz no cotidiano

Uma rede de apoio reúne pessoas, espaços e serviços que oferecem ajuda prática, escuta e reconhecimento. Família, amizades, vizinhança, escolas, comunidades culturais e religiosas, coletivos, associações e serviços públicos podem compor essa rede. Ela não precisa ser grande para ser significativa, mas precisa ser possível e confiável.

Para quem acolhe, o primeiro passo pode ser escutar sem curiosidade invasiva. Nem toda pessoa deseja contar detalhes de sua partida, de suas perdas ou de experiências dolorosas. Perguntar “como posso ajudar?” costuma ser mais respeitoso do que supor necessidades ou pedir relatos íntimos.

Outra atitude importante é não tratar diferenças culturais como exóticas ou inferiores. A integração não deveria exigir apagamento. Aprender o idioma local pode ampliar autonomia, por exemplo, mas preservar a língua de origem e os costumes familiares também pode sustentar vínculos e identidade.

Em vez de discursos abstratos sobre empatia, vale observar barreiras concretas. A informação está clara? Há alguém que possa explicar como acessar um serviço? O ambiente respeita diferentes sotaques, crenças e modos de viver? Há práticas discriminatórias que precisam ser interrompidas? Acolher envolve presença, mas também responsabilidade coletiva.

Escuta respeitosa e caminhos de cuidado

A escuta em saúde mental não deve partir da ideia de que a mobilidade humana é, por si, uma doença. Ela pode considerar perdas, rupturas e experiências difíceis, sem reduzir a pessoa a elas. Pode acolher a saudade sem tratar o desejo de voltar como fracasso. Pode reconhecer o desejo de ficar sem exigir que o passado seja esquecido.

Quando alguém busca psicoterapia, é importante que encontre espaço para falar de sua vida em sua complexidade: relações familiares, idioma, pertencimento, trabalho, preconceito, expectativas, culpas, projetos e escolhas. A história migratória pode estar presente nas sessões, mas não precisa ocupar tudo. A pessoa continua sendo muito mais do que sua condição migratória.

Para quem vive fora de seu país e deseja refletir sobre esse processo em um espaço de escuta, vale conhecer o texto sobre psicoterapia para expatriados. A decisão de iniciar um acompanhamento pode ser considerada quando o sofrimento começa a limitar a vida cotidiana, os vínculos, o trabalho, o sono ou a capacidade de cuidar de si.

Em situações de risco imediato, violência, ameaça à integridade física ou pensamento de morte, a prioridade é buscar atendimento de urgência e os serviços de proteção disponíveis na região. A psicoterapia não substitui medidas de segurança, apoio social, assistência jurídica ou políticas públicas; esses campos podem se complementar.

Acolher é reconhecer humanidade e singularidade

O acolhimento de imigrantes e refugiados não pede heroísmo. Pede disposição para reconhecer que a mobilidade humana atravessa direitos, vínculos e modos de habitar o mundo. Pede que a pessoa seja vista para além de rótulos e que sua diferença não seja usada como justificativa para isolamento.

Construir pertencimento não é obrigar alguém a caber em um modelo único de vida. É criar relações e condições nas quais seja possível existir com dignidade, manter memórias, formar novos laços e participar da comunidade sem abrir mão de sua humanidade.

Este conteúdo tem caráter educativo e informativo. Ele não substitui avaliação psicológica, psicoterapia, atendimento médico, orientação jurídica ou acompanhamento individualizado.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre imigrante e refugiado?

“Migrante” é um termo amplo para quem deixa seu local habitual de residência, dentro ou fora do país, por diferentes razões. “Refugiado” é uma categoria de proteção internacional ligada a situações específicas, como perseguição, graves violações de direitos humanos e conflitos armados. Nem toda pessoa migrante é refugiada.

Toda pessoa refugiada apresenta trauma ou transtorno mental?

Não. Pessoas refugiadas podem ter vivido adversidades graves, mas não devem ser automaticamente diagnosticadas ou definidas pelo trauma. O sofrimento psíquico varia conforme a história de cada pessoa, suas condições atuais, seus recursos e suas redes de apoio. Quando há sofrimento persistente ou intenso, uma avaliação profissional pode ajudar.

Como acolher uma pessoa recém-chegada sem invadir sua história?

Ofereça ajuda concreta, pergunte antes de supor o que ela precisa e respeite seus limites para falar sobre experiências pessoais. Informações acessíveis, convivência sem discriminação e abertura para conhecer sua cultura podem ser formas importantes de acolhimento.

Referências

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