Ilustração de duas pessoas conversando em poltronas em um ambiente universitário, com livros, mochila e plantas ao redor.

Saúde mental na universidade: como escutar, acolher e ajudar a buscar apoio

Acolhimento, Blog, Prevenção, Saúde Mental

Este artigo foi adaptado e ampliado a partir de uma publicação autoral de Gisa Aquino Dineli no LinkedIn.

A vida universitária costuma reunir descobertas, encontros, escolhas e projetos de futuro. Ao mesmo tempo, pode trazer cobranças, mudanças de cidade, dificuldades financeiras, relações complexas, insegurança sobre o próprio percurso e medo de não corresponder às expectativas.

Nem sempre esse sofrimento aparece nas notas, na frequência ou na participação em trabalhos. Uma pessoa pode continuar cumprindo tarefas e, ainda assim, estar vivendo algo difícil demais para sustentar sozinha. Por isso, falar sobre saúde mental na universidade também é aprender a estar disponível nas relações cotidianas, sem supor que uma conversa resolve tudo.

Esta reflexão continua o tema desenvolvido no artigo Setembro Amarelo: cuidado responsável sem simplificações. Aqui, o foco é mais específico: como iniciar uma conversa acolhedora no ambiente acadêmico e como ajudar alguém a se aproximar de uma rede de cuidado, respeitando os limites de colegas e docentes.

Quando o sofrimento não aparece nas notas

É tentador procurar uma explicação única para o sofrimento de um estudante: uma prova difícil, um atraso no curso, uma decepção amorosa ou um conflito familiar. No entanto, a experiência emocional não cabe em uma causa isolada. Cada pessoa vive uma combinação singular de condições, vínculos, história e possibilidades de apoio.

Em alguns momentos, a universidade pode se tornar o lugar onde tensões já existentes ganham mais intensidade. Em outros, o próprio cotidiano acadêmico pode exigir adaptações importantes: lidar com avaliações, conciliar trabalho e estudo, construir pertencimento em uma turma nova, enfrentar preconceitos ou decidir rumos profissionais.

Isso não significa transformar dificuldades acadêmicas em diagnóstico, nem concluir que a universidade explica sozinha uma crise emocional. Significa reconhecer que a rotina de estudos faz parte da vida e pode ser um espaço importante para perceber mudanças, oferecer presença e facilitar ajuda.

Talvez um colega passe a se afastar de conversas que antes valorizava. Talvez alguém pareça muito mais cansado, angustiado ou sem esperança. Talvez um professor note uma alteração persistente na forma como uma estudante se comunica ou se relaciona com as atividades. Nenhum desses sinais, isoladamente, permite definir o que está acontecendo. Ainda assim, eles podem convidar a uma aproximação respeitosa.

Escutar não é encontrar a frase perfeita

Quando percebemos que alguém não parece bem, é comum temer dizer algo inadequado. Esse receio pode levar ao silêncio ou a conselhos rápidos, dados para aliviar a nossa própria aflição. Mas uma conversa acolhedora não depende de respostas prontas. Ela começa com interesse genuíno, tempo possível e disposição para ouvir sem diminuir a experiência do outro.

Escuta acolhedora é a atitude de prestar atenção ao que a pessoa diz e ao modo como ela consegue dizer. Não se trata de concordar com tudo, interpretar cada fala ou assumir o papel de terapeuta. Trata-se de criar uma pausa em que o sofrimento possa ser reconhecido sem julgamento, comparação ou pressão para melhorar imediatamente.

Escolha um momento e um lugar mais reservados

Uma abordagem diante de outras pessoas pode constranger quem já está fragilizado. Sempre que possível, vale procurar um momento mais tranquilo, depois de uma aula, em um intervalo ou em uma conversa por mensagem que convide, sem exigir resposta imediata.

Uma ilustração editorial poderia ser a de uma colega que, após perceber que um amigo deixou uma atividade antes do fim, escreve: “Notei que você pareceu mais quieto hoje. Se quiser conversar, estou aqui para ouvir.” A frase não invade, não interpreta e não obriga. Ela abre uma possibilidade.

Outra ilustração seria a de um docente que evita expor uma estudante diante da turma e, em vez disso, propõe uma conversa breve em particular: “Percebi que as últimas semanas parecem estar mais difíceis. Há algo em que eu possa ajudar a encaminhar dentro dos limites da universidade?”

Prefira perguntas abertas e presença

Perguntas simples podem ajudar mais do que discursos longos. “Como você tem estado de verdade?”, “Quer me contar o que está pesando?” ou “O que seria mais importante para você agora?” são convites possíveis. Depois, é preciso sustentar algum silêncio e permitir que a pessoa encontre suas palavras.

Também pode ser útil dizer: “Obrigado por confiar isso a mim”, “Eu levo a sério o que você está contando” ou “Não precisamos resolver tudo agora; vamos pensar no próximo passo possível”. Essas falas não prometem cura. Elas comunicam respeito e ajudam a diminuir a solidão que, muitas vezes, acompanha o sofrimento.

Evite transformar a conversa em disputa de perspectivas. Frases como “mas você tem tanta coisa boa”, “isso é só uma fase” ou “você precisa ser forte” podem partir de uma boa intenção, mas correm o risco de fazer a pessoa se sentir ainda menos compreendida.

O apoio de colegas e professores tem limites importantes

Uma comunidade acadêmica mais atenta não se constrói atribuindo a estudantes e docentes a responsabilidade de salvar alguém. Colegas não substituem profissionais de saúde. Professores também não precisam assumir funções clínicas, investigar a vida pessoal de alunos ou estar disponíveis sem limite.

O papel possível de quem está por perto é acolher, levar a fala a sério e colaborar para que a pessoa encontre apoio adequado. Isso pode incluir ajudar a procurar os canais oficiais da instituição, acompanhar a pessoa até um serviço de saúde, contatar alguém de confiança com sua concordância ou permanecer por perto enquanto um encaminhamento é organizado.

Os recursos variam entre universidades. Algumas instituições oferecem apoio psicológico, assistência estudantil, serviços de saúde, coordenações de curso, ouvidorias ou programas de permanência. Antes de indicar um serviço, é importante verificar em canais oficiais se ele existe, como funciona e quais são seus horários. Quando não houver uma informação clara, a rede pública e privada de saúde do território pode orientar os próximos passos.

Sigilo não é uma promessa absoluta diante de risco imediato

Privacidade importa e merece respeito. Contudo, se alguém relata risco imediato de se machucar ou de morrer, não é seguro prometer segredo absoluto. Nessa situação, buscar ajuda com a pessoa e acionar outros adultos de confiança ou serviços de saúde pode ser necessário.

Falar com clareza costuma ser mais cuidadoso do que agir às escondidas. É possível dizer: “Eu respeito o que você me contou, mas estou preocupado com sua segurança. Vamos chamar alguém para nos ajudar agora?” A prioridade, nesse momento, é ampliar a proteção e não deixar uma única pessoa responsável por uma situação grave.

Da conversa ao cuidado: transformar preocupação em um próximo passo

Depois de escutar, uma pergunta útil pode ser: “Com quem você se sentiria mais seguro para conversar agora?” A resposta pode apontar para uma pessoa da família, uma amizade, um profissional que já acompanha o estudante ou um serviço de saúde. Quando a pessoa concorda, o apoio prático pode tornar esse passo menos solitário.

Também é válido reconhecer quando não se sabe o que fazer. Nesse caso, procure orientação institucional ou informações nos serviços de saúde. Não é preciso ter domínio técnico para dizer: “Não quero que você passe por isso sozinho. Vamos buscar um lugar que possa cuidar disso com você.”

Se a conversa mobilizar medo, angústia ou sensação de impotência em quem escuta, esse efeito também merece cuidado. Compartilhar a responsabilidade com uma rede confiável não é abandono. Ao contrário, é uma forma de evitar que o acolhimento dependa de uma única relação e de tornar o cuidado mais consistente.

Para dúvidas gerais sobre processos de psicoterapia, pode ser útil consultar as perguntas frequentes sobre psicoterapia. Em situações de urgência, porém, a prioridade não é aguardar uma consulta eletiva, mas acessar atendimento de saúde imediatamente.

Apoio emocional e emergência: caminhos diferentes, ambos necessários

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e disponível 24 horas por dia pelo telefone 188, em todo o Brasil. O serviço também disponibiliza chat e e-mail em seu site. Conversar pode ser um recurso importante quando alguém precisa ser ouvido sem julgamentos.

Entretanto, o CVV não substitui atendimento de emergência. Se houver risco imediato à vida, procure pronto-socorro, UPA ou acione o SAMU pelo número 192. O Ministério da Saúde também reúne orientações públicas sobre prevenção do suicídio e acesso à rede de cuidado.

Na universidade, escutar não é uma técnica de salvamento nem uma garantia de prevenção. É uma forma responsável de não tratar a dor como exagero, fraqueza ou inconveniente. Quando essa escuta se une a encaminhamentos concretos e a uma rede de apoio, ela pode ajudar alguém a não permanecer sozinho diante do que parece insuportável.

Se esta reflexão fizer sentido, compartilhe-a com colegas, docentes e pessoas da comunidade acadêmica. Às vezes, uma conversa começa porque alguém escolheu perguntar com respeito — e também soube buscar ajuda junto.

Este conteúdo tem caráter educativo e informativo. Não substitui avaliação psicológica, psiquiátrica, médica ou atendimento de urgência. Em risco imediato, procure uma UPA, pronto-socorro ou acione o SAMU pelo 192. Para apoio emocional, o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia.

Perguntas frequentes

Como abordar um colega de universidade que parece estar sofrendo?

Procure um momento reservado e faça uma aproximação simples, sem pressionar. Você pode dizer que percebeu uma mudança e que está disponível para ouvir. Evite diagnosticar, comparar dores ou exigir que a pessoa explique tudo. Caso ela queira conversar, acolha e ajude a pensar em um próximo passo de apoio.

Um professor deve resolver sozinho uma situação de sofrimento emocional de um estudante?

Não. Docentes podem acolher, evitar exposição e orientar a busca por recursos institucionais ou de saúde, mas não devem assumir sozinhos uma função clínica ou de emergência. Se houver risco imediato, é necessário ampliar a rede de apoio e acionar serviços adequados.

Quando é preciso procurar ajuda urgente?

Se houver risco imediato de a pessoa se machucar ou morrer, procure atendimento de urgência, como UPA ou pronto-socorro, ou acione o SAMU pelo 192. O CVV atende pelo 188 para apoio emocional, mas não substitui atendimento de emergência.

Referências

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