
Se você nunca viu um filme de Woody Allen, Dirigindo no Escuro apresenta uma de suas comédias mais acessíveis.
Val Waxman, cineasta duas vezes vencedor do Oscar, atravessa uma fase de fracasso profissional. Quando surge uma nova oportunidade, ele desenvolve uma cegueira sem explicação orgânica evidente. O roteiro faz rir e pensar na medida certa.
Quando o corpo entra em cena
O filme transforma o sintoma em motor cômico, mas toca em um tema clínico sério: experiências emocionais podem aparecer também no corpo. Hoje, expressões como “sintomas neurológicos funcionais” são mais adequadas do que o antigo rótulo “cegueira histérica”.
Isso não significa que o sintoma seja inventado. A pessoa realmente vive a alteração e precisa de avaliação médica para excluir causas orgânicas, além de cuidado psicológico quando indicado.
O medo de voltar a ser visto
Val recebe a chance que desejava, mas com ela retornam julgamento, expectativas e a possibilidade de fracassar novamente. Não enxergar funciona, na lógica do filme, como metáfora de um conflito: ele quer dirigir, mas teme encarar o próprio lugar.
Bloqueios criativos nem sempre são falta de talento ou disciplina. Podem envolver vergonha, perfeccionismo, medo de exposição e dificuldade de tolerar incerteza.
Humor e elaboração
A comédia cria distância suficiente para olharmos o sofrimento sem sermos esmagados por ele. Rir não elimina o conflito, mas pode torná-lo pensável.
Dirigindo no Escuro convida a perguntar: o que deixamos de ver quando o medo de falhar ocupa toda a cena? E o que pode acontecer quando aceitamos criar mesmo sem controlar completamente o resultado?
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Nota editorial: Texto histórico “Vamos de filme?” recuperado da publicação de 18 de março de 2017 e ampliado com terminologia clínica atual. O conteúdo foi revisado em agosto de 2026 para corrigir linguagem, atualizar contexto e preservar a segurança clínica, sem finalidade diagnóstica.




